" Durante pouco menos de três séculos a partir do descobrimento da América,
não houve, para o comércio da Europa, produto agrícola mais importante
que o açucar cultivado nestas terras.
Ergueram-se canaviais no litoral úmido e quente do Nordeste do Brasil
(...)
Da plantação colonial, subordinada às necessidades estrangeiras e financiada,
em muitos casos, do exterior,
provém em linha reta o latifúndio de nossos dias.
Este é um dos gargalos da garrafa que estrangulam o desenvolvimento econômico da América Latina
e um dos fatores primordiais da marginalização
e da pobreza das massas latino-americanas
(...)
O Nordeste era a zona mais rica do Brasil e hoje é a mais pobre
(...)
O açucar arrasou o Nordeste
(...)
Naturalmente nascida para produzir alimentos, passou a ser uma região de fome.
Onde tudo germinava com exuberante vigor,
o latifúndio açucareiro, destrutivo e avassalador,
deixou rochas estéreis, solos lavados, terras erodidas."
AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA
EDUARDO GALEANO
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foto gentilmente cedida por FreeFoto
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No Brasil, o discurso oficial nos leva a crer que a grande solução está nos biocombustíveis, em função de serem "limpos". Isso é apenas parte da verdade. Realmente o que sai dos escapamentos nos veículos que usam biocombustíveis é muito menos agressivo do que é emitido com combustíveis fósseis (derivados do petróleo). Embora já existam estudos brasileiros, os quais vêm sendo ignorados pelo poder público, comprovando que a queima de biocombustíveis tem, como subprodutos, os componentes: NOx 3 e Vanádio 4.
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Na esteira da utilização dos biocombustíveis surgem outras graves e nefastas implicações sociais e econômicas, como por exemplo:
a) destruição de florestas para ampliação da área de cultivo - para se produzir a gigantesca quantidade de combustível necessária para se suprir o mercado é certo que muitas áreas de floresta serão derrubadas, principalmente nos países do terceiro mundo, o que contradiz por completo o próprio objetivo, já que o desmatamento também contribui para o aquecimento global;
b) elevação no preço dos alimentos - a tendência, por parte dos agricultores, será substituir o plantio de alimentos destinados à população pela a monocultura de produtos voltados para a produção dos biocombustíveis (coisa que já está acontecendo), e aí entra aquela velha lei do mercado: quanto menor a oferta maior o preço. Essa tendência promete agravar, em muito, o já intenso e doloroso problema da fome;
c) degradação da terra pela monocultura - prática associada aos latifúndios5, a monocultura causa o empobrecimento do solo e o assoreamento dos rios (em função da extensa irrigação que certas culturas exigem), propicia o aparecimento de pragas (insetos) e extingue a fauna nativa - são os chamados desertos verdes;
d) poluição - na cultura da cana-de-açúcar é comum a queima da palha. Essa prática visa facilitar a colheita e o transporte, porém, tem conseqüências desastrosas para o meio ambiente e para a saúde da população - a queima libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre (responsáveis pelas chuvas ácidas), liberam também a indesejada fuligem da palha queimada (que contém substâncias cancerígenas);
e) histórico de atentados aos direitos humanos - já foram registrados em plantações de cana-de-açúcar no Brasil vários casos de desrespeito aos direitos humanos envolvendo escravidão, trabalho infantil, salários indignos, condições precárias de trabalho, conflitos violentos por terra, mortes e graves problemas de saúde devido à utilização de produtos químicos e ao desflorestamento;
f) aspectos morais - já existem, ao redor do mundo, muitas opiniões convergindo para a idéia de que a produção intensa de alimentos para serem queimados como combustível, em um planeta onde milhões de pessoas passam fome, é moralmente inaceitável.
A União Européia já reconhece publicamente que a euforia de tempos atrás em torno dos biocombustíveis foi precipitada. Os biocombustíveis pareciam ser a saída perfeita para se cortar as emissões de gases poluentes sem haver a necessidade de se revolucionar os projetos dos veículos de transporte. A partir da divulgação de estudos feitos desde então e que revelam os problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes da sua produção e utilização, o bloco europeu decidiu reduzir as metas que já haviam estabelecido para a sua utilização.
Na ONU já se fala também em uma moratória de cinco anos da produção de biocombustíveis como o etanol, ou seja, no congelamento de sua utilização, para que se possam fazer estudos mais profundos e, a partir de avanços tecnológicos, usarem os subprodutos agrícolas (como espigas de milho depois de retirados os grãos ou folhas de bananeira) para produzir combustíveis, e não as colheitas de alimentos em si.
A proposta deste site, frente ao que foi exposto acima, é a de também direcionarmos nossos esforços para os veículos movidos com energias alternativas como o carro elétrico e o Carro Movido a Ar Comprimido, que começará a ser fabricado este ano pela Tata Motors, associada ao grupo MDI, na Índia (mais informações sobre o carro na guia Novas Caminhos Energéticos).
Foto gentilmente cedida por FreeFoto
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Não podemos nos esquecer do fracasso do primeiro programa de álcool combustível brasileiro, que foi altamente inflacionado pelos usineiros. Boa parte do povo brasileiro aderiu, na época, ao PRÓALCOOL e ficou a ver navios quando o combustível não parava de subir, chegando a ficar mais caro do que a gasolina. Atualmente os carros flex só estão no mercado pois não dependem exclusivamente do etanol, senão seria aquele vexame de novo.
Hoje a história se repete com o GNV (Gás Natural Veicular) e os motoristas que aderiram ao seu uso sofrem com ameaças de desabastecimento e reajustes na ordem de 15%.
Se nós podemos ter veículos movidos a energias alternativas, e que não dependem nem de petróleo nem dos usineiros, porque não começamos a experimentá-los logo?
oo
oooo
Isso não quer dizer um corte abrupto no uso do petróleo e dos biocombustíveis. Até porque uma renovação na frota nacional demora certo tempo. O tempo necessário para que a economia vá se ajustando ao novo panorama e as empresas também possam ir se adaptando a uma nova realidade de mercado, ou seja, aquela na qual o povo não fica pagando tarifas extremamente caras por serviços que podem sair 12 vezes mais baratos.
Existe uma máxima no setor dos combustíveis que é: "A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra, a Idade do Petróleo também não acabará por falta de petróleo". É clara a tendência do mundo todo na busca por energias alternativas.
Há uma mobilização muito forte em vários países que estão tratando do Aquecimento Global com a seriedade necessária. Quem conseguir se afirmar primeiro no mercado de energia com tecnologias mais limpas ganhará o jogo. Precisamos pegar o novo bonde da história agora!
O meu sonho é, provavelmente, o pesadelo dos gigantes dos combustíveis e da energia: possuir um Carro Movido a Ar ou elétrico e poder reabastecê-lo em casa, com a energia proveniente dos meus painéis de captação solar.
Mas, se eles forem espertos, começarão a fabricar baterias limpas e eficientes, peças para os carros e painéis solares mais baratos para venderem bastante!
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3 NOx - contribui para a chuva ácida além de causar irritação dos olhos e no aparelho respiratório, tendo efeito potencial no desenvolvimento de enfisema.
4 Vanádio - elemento tóxico - sua inalação pode causar câncer de pulmão.
5 Latifúndios – são extensas propriedades rurais originadas na concentração desequilibrada de terras , características de uma estrutura agrária arcaica, e que colaboram para o atraso e para o sub-emprego nos campos e nas cidades.