Editorial

A solução para o Aquecimento Global envolve ética, coletividade e solidariedade
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            A discussão atual sobre o Aquecimento Global abre um profícuo caminho para reconsiderarmos o nosso papel social como cidadãos e, conseqüentemente, como sujeitos da nossa história.
 
            Embora o fenômeno do Aquecimento Global não seja uma unanimidade entre os cientistas, é consenso entre a grande maioria deles. Existem inúmeros estudos científicos publicados, e que vêm sendo exaustivamente discutidos, mostrando as alterações climáticas e suas relações com o comportamento humano. Existem vários dados concretos que confirmam a sua tendência e paulatino agravamento. Partindo-se, portanto, da premissa de que o Aquecimento Global é um fenômeno que já está acontecendo e que, mantendo-se os patamares atuais de desmatamentos e emissões, sua tendência é agravar-se cada vez mais rapidamente, faz-se necessário perguntarmos a nós mesmos: o que podemos fazer?
 
            A resposta é muito simples por um lado e extremamente complexa por outro. É simples porque já sabemos muitas coisas que podemos fazer e temos os instrumentos para começarmos a pô-las em prática imediatamente. Porém, é também complexa fundamentalmente por dois motivos: porque ela implica em reformularmos os critérios de desenvolvimento que vêm guiando nosso modo de vida há séculos e também porque essa reformulação implicará, necessariamente, em grandes perdas financeiras para alguns setores da economia mundial, principalmente os que vêm enriquecendo através do uso massivo de agentes poluidores.
 
            Evidentemente, esse comportamento humano, excessivamente consumista e devastador que, em última análise, originou o aquecimento global antropológico, é decorrência de uma distorção na forma de se enxergar e agir no mundo que podemos chamar de lógica de mercado.
 
            Até bem pouco tempo, o lema da economia mundial, calcado na lógica de mercado, era: lucro e desenvolvimento acelerado a qualquer custo. Essa ótica perversa, além de ter gerado uma profunda desigualdade social, promoveu também uma ideologia que conduz ao individualismo e à competitividade exacerbada, na qual ter e ostentar o que se tem é mais importante do que ser e onde a estatística tornou-se mais importante do que o homem. Essa ideologia não apenas aprofundou as injustiças sociais, mas procurou justificá-las, consolidá-las e se alimentar delas. Forjou-se, com isso, uma sociedade calcada em impérios econômicos vorazes, poderosos e excludentes, onde a discriminação foi utilizada para justificar a exploração da servidão humana - verdadeiro combustível a sustentá-los.
 
            O aparecimento desta ameaça de um desastre ambiental de magnitude colossal veio obrigar o ser humano a questionar-se sobre este modo de organização social, política e econômica que agora está a conduzí-lo para um futuro trágico - o da sua própria extinção.
 
            Não se trata mais de uma opção político-ideológica de direita ou de esquerda, mas sim se queremos ou não legar alguma possibilidade de existência aos nossos filhos e netos. Somente um chamamento dessa ordem poderia nos conduzir a optarmos por um caminho ético de desenvolvimento econômico? Não sei, mas esse foi o desafio que a nós se apresentou. E acredito firmemente que a única direção que poderá nos conduzir para a solução do Aquecimento Global passa, obrigatoriamente, pela ética, pela coletividade e pela solidariedade.
 
            O cerne da questão, a meu ver, reside na necessária mudança de comportamento que a mitigação do Aquecimento Global nos impõe, caso queiramos sobreviver como espécie num futuro bem próximo.
 
            Enquanto o mundo inteiro está discutindo maneiras de minimizar as atividades antropológicas que causam o Efeito Estufa e, conseqüentemente, o Aquecimento Global, alguns países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, insistem na posição de que os responsáveis por toda essa história foram os países desenvolvidos e que eles já dizimaram as suas próprias florestas, o que nos chancelaria a fazermos o mesmo; em função dessa ótica nefasta, não teríamos nenhuma obrigação de fixarmos metas de contenção nas emissões de CO2, pois também precisamos nos desenvolver e crescer economicamente, afinal “há todo um mercado consumidor ávido por produtos e bens”.
 
            Esse pensamento tem sua raiz na visão paternalista que insiste em reinar no terceiro mundo. Ora, se estamos vivendo um problema mundial que ameaça dizimar milhões de vidas humanas em todo o planeta, como algum país pode ficar de fora das soluções? Principalmente estando com um governo teoricamente progressista? Seria o mesmo que dizermos que a solução dos problemas econômicos e sociais do nosso país está à parte das camadas pobres da sociedade, pois elas não teriam condições de ajudar em função de ignorância ou incompetência, afinal seriam apenas vítimas incapazes de colaborar... Por que deveríamos pensar assim? Desde quando uma solução de problemas globais pode ser efetivada com sujeitos sociais marginalizados do processo? Como queremos nos inscrever como atores no panorama político e econômico global nos furtando a participar do processo que vêm se constituindo como determinante na sobrevivência do ser humano e que mostra claras tendências de vir a tornar-se prioridade na agenda mundial?
 
          O Brasil está cometendo um erro estratégico ao investir todos os seus esforços apenas nas energias sujas. É evidente a preocupação política, econômica e social em todo o mundo desenvolvido, na busca por energias ecologicamente corretas na completude de sua cadeia de produção, distribuição e consumo. A pressão popular é muito grande e vem forçando tanto as empresas quanto os governos a direcionarem seus esforços para as iniciativas verdadeiramente sustentáveis. Nosso país está perdendo a chance de liderar essa grande revolução energética, principalmente levando-se em conta que o clima e a geografia do Brasil exibem enorme potência para geração de energia eólica e solar.
 
      Colocando a questão em português claro, nós precisamos:
 
1)    Investir na pesquisa e na promoção de energia solar e eólica, inclusive financiando a sua implementação e a sua aquisição pela sociedade (financiamentos populares amigáveis);
2)    Impulsionar os veículos movidos a energias alternativas (ar, eletricidade, etc.);
3)    Desenvolver campanhas publicitárias responsáveis de conscientização sobre os três “erres” – reduzir, reutilizar e reciclar;
4)    Fomentar o transporte público sustentável e de qualidade, desestimulando o uso do transporte individual;
5)    Promover e intensificar programas de coleta seletiva e reciclagem;
6)    Incentivar as iniciativas sustentáveis e moralmente éticas;
7)    Combater a desigualdade e a injustiça social;
8)    Estabelecer metas claras e significativas de corte nas emissões de CO2, tanto as originadas pela queima de combustíveis fósseis quanto pelo desmatamento desenfreado.
 
          Em resumo, o foco principal da economia deve ser a conjugação de lucro e desenvolvimento com a sustentabilidade, com o bem-estar social e com a valorização do homem e da vida.
 
Leysa Vidal – cidadã brasileira.
 


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