
Desativar um dos mais de três mil lixões que existem no Brasil não é tarefa fácil. Do ponto de vista técnico, é preciso fazer obras e monitorar o terreno para evitar contaminação da área. Do ponto de vista social, no entanto, é bem mais difícil, pois muita gente vive de garimpar os restos de comida e de resíduos sólidos. Mas algumas tentativas têm dado bons resultados.
O essencial é o aproveitamento das pessoas que viviam do lixão em cooperativas de reciclagem no próprio local. Os antigos catadores se transformam em profissionais e aprendem a governar-se como uma empresa, voltados para a produção, a sobrevivência e o lucro.
A catadora Elizabeth Oliveira, 26 anos, cresceu disputando restos num lixão no município de Embu, na grande São Paulo. "No tempo do lixão, a gente apanhava dos maiores, só pegava o que sobrava deles." O lixão foi desativado em 1994 pela prefeitura, que criou uma cooperativa para os catadores trabalharem com na separação do material para reciclagem. Elizabeth é uma das 30 pessoas que trabalham no lugar. O salário é de R$ 400 por mês, mais a contribuição previdenciária de R$ 40. "Minha vida melhorou muito: agora eu tenho móveis e a casa tem cinco cômodos."
Para quem está de fora não parece muito, mas a mudança é gigantesca. Quem vivia no lixão garimpando restos está praticamente fora da sociedade. A nova ocupação é um fator de transformação. A partir do momento que têm uma carteira da cooperativa e um salário, estes trabalhadores podem fazer compras a crédito, coisa que antes estava fora do seu alcance. "Eles percebem que têm importância, são reconhecidos como profissionais", diz Vera Chevalier, coordenadora do projeto de cooperativas da Recicloteca. "É um grande passo para se sentirem cidadãos de novo."
As cooperativas criadas com os trabalhadores dos lixões servem também para ensinar aos catadores a importância do trabalho em equipe e da negociação, além de afastá-los das violência. "Muitos não tinham vínculos sociais, mas com o tempo eles passam a confiar nos parceiros e aprendem a negociar", explica Christine Fontelles, gerente de projetos sociais da ONG Ecofuturo.
Há dois anos a Prefeitura de São Bernardo do Campo desativou o lixão do Alvarenga, que recebeu resíduos durante 30 anos, e implantou uma cooperativa para que as famílias que moravam no local se transformassem em catadores. Hoje existem duas cooperativas. Uma é formada pelas 88 famílias de lá e que cuida da separação e compactação do material para a reciclagem. A outra reúne cerca de 150 catadores associados, que recolhem material nas ruas.
"A maioria ainda mora perto do que era o lixão, mas em casas próprias", conta Sônia Lima, coordenadora do departamento de meio ambiente da prefeitura. Os salários estão em torno dos R$ 750. Um reflexo do aumento da renda é que as 176 crianças que viviam no lixo agora freqüentam escolas.
http://www2.uol.com.br/aprendiz/guiadeempregos/terceiro/noticias/ge110403.htm#1
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