José Eli da Veiga fala sobre a diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento 05.05.2008
Para o pesquisador e economista José Eli da Veiga, da Universidade de São Paulo (USP), o crescimento econômico não pode ser visto como um fim. Trata-se de uma das partes do processo de desenvolvimento, processo esse que inclui outros componentes essenciais normalmente relegados a segundo plano, como educação, produção científica e sustentabilidade ambiental.
EN - Quais deveriam ser as prioridades do Brasil neste momento se buscasse o desenvolvimento sustentável e não apenas o crescimento?
Veiga - Para buscar desenvolvimento sustentável qualquer país precisa priorizar a expansão das liberdades humanas que seja compatível com a melhor conservação possível dos ecossistemas que a alicerçam. Desenvolvimento e sustentabilidade são dois fenômenos multidimensionais, que não podem ser resumidos em poucas prioridades. Mesmo assim, é certeza que neste início de século 21 nada pode ser mais importante para o Brasil do que garantir ao seu povo tudo o que de melhor houver em termos de educação científica. E simultaneamente consolidar um criativo sistema de Ciência Tecnologia & Inovação, sem o qual nenhuma das demais exigências do desenvolvimento sustentável poderá ser cumprida.
EN - Muitos defendem que o Brasil cresceria mais se não fosse a lei ambiental e a postura exagerada das ONGs em relação a novas grandes obras. Respeito ao meio-ambiente é um entrave ao desenvolvimento?
Veiga - Nessa pergunta está bem clara a confusão entre crescimento e desenvolvimento. Não há dúvida de que o respeito ao meio-ambiente é entrave ao crescimento selvagem - como o Chinês - que muitos desejam. Mas ocorre o contrário com um crescimento civilizado que ajuda a atingir esse fim que é o desenvolvimento sustentável.
EN - Por causa de seu espetacular crescimento, a China tornou-se um ícone no mundo dos negócios. O país afinal não é um bom exemplo para os países emergentes como o Brasil?
Veiga - O estilo de crescimento que prevaleceu na China nas últimas décadas é um dos piores exemplos que pode ser dado a outros países, sejam emergentes ou não. É muito melhor crescer menos, mas ir em direção ao desenvolvimento sustentável, do que crescer muito e depois enfrentar uma catástrofe bélica por razões de energia ou de água, como certamente ocorrerá com a China ainda neste século.
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