Marina - um novo tempo 26.05.2008
Idésio Luis Franke *
Marina - um novo tempo
Depois de aproximadamente 5,5 anos à frente do Ministério do Meio Ambiente – MMA, Marina despede-se do cargo executivo que honrou o Acre e a Amazônia, respaldada pela comunidade internacional.
Especialistas de vários países colocaram Marina entre “as 50 pessoas que podem salvar o planeta”.
Mas vários foram os embates de Marina com os poderosos e mesmo dentro do governo Lula com vários ministérios e feudos encravados na máquina pública.
O licenciamento ambiental, colocado pela Confederação Nacional da Indústria como um dos maiores entraves ao “desenvolvimento” – opinião compartilhada por Lula, Dilma Roussef e Mangabeira Unger –, foi um dos principais responsáveis pela saída de Marina, visto que a mesma sempre exigiu procedimentos criteriosos quanto à contemplação dos aspectos ambientais.
Jamais abriu mão do “princípio da precaução” quando se tratava da liberação de transgênicos, visto o impacto negativo que eles podem causar à saúde e ao meio ambiente.
Na discussão da lei de Florestas Públicas, Marina enfrentou a oposição a ferro e a fogo, defendendo o projeto praticamente sozinha, pois os demais membros da tropa de choque do governo Lula se esquivavam ao máximo.
Enfrentou a chaga do desmatamento e das queimadas com coragem, ousadia e destemor, atraindo para si a ira dos interesses daqueles que desflorestam a Amazônia a qualquer preço.
O Plano Amazônia Sustentável – PAS –, elaborado sob o comando do MMA e pelo Ministério da Integração Nacional – MIN –, foi entregue ao Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Sr. Mangabeira Unger. Marina foi alçada por Lula à condição de mãe do PAS, mas quem o vai criar (o filho) será outro pai.
A bancada ruralista no Congresso comemorou. Acusam Marina de ter sido “ideológica” na atuação frente ao MMA. Ora, todos temos uma ideologia. Até admiro aqueles que dizem que são de esquerda, direita, conservadores, liberais, socialistas, capitalistas... pelo menos expressam sua convicção. Pior é os que não o fazem, escondendo-se atrás de uma suposta “neutralidade”.
Críticas infundadas de que Marina era “demagoga”, “protecionista exacerbada”, criadora de “problemas”, contrária aos avanços tecnológicos, que representava um atraso para o país, preconceituosa contra o agronegócio e o sistema produtivo e, pasmem, que “incentivava o crime”.
Vejam o que afirmou o presidente da Famato (que representa agricultores e pecuaristas de MT), Rui Ottoni Prado: “espero que seja indicado alguém com capacidade de discutir questão ambiental e desenvolvimento econômico de forma integrada”. Muito bem, era exatamente essa a principal agenda de Marina. Quanta miopia...ou desfaçatez...
Grileiros e latifundiários especuladores de terras criminosos, pecuaristas e madeireiros descompromissados, sojeiros e canavieiros irresponsáveis, desflorestadores e poluidores, produtores à margem da lei, eis aqueles que se encheram de júbilo Brasil afora com a saída de Marina do MMA.
Chegaram a afirmar que Lula “marcou um gol” com a saída de Marina do MMA.
Esse é o retrato da elite conservadora e a direita brasileira empedernida e defensora da desigualdade social e da degradação ambiental, que teima em não enxergar “os novos tempos”. Mal sabem eles que a saída de Marina significou uma das maiores derrotas políticas do presidente Lula. O futuro dirá com quem estará a razão.
Depois de Marina o MMA e a política ambiental brasileira não será mais a mesma. Antes desprestigiada, agora a agenda ambiental é pautada nos mais diversos fóruns setores da sociedade, na perspectiva da transversalidade com outras ações de governo.
Se ainda há muito por fazer, podemos dizer quer agora os fundamentos da gestão ambiental são aplicados no Brasil e que a governança ambiental está sendo exercitada nos mais diversos setores sociais.
Nos “novos tempos” o desenvolvimento sustentável vigorará em toda sua plenitude e será buscado pelo conjunto da sociedade.
Um tempo virtuoso do qual Marina verá que valeu a pena ter lutado e contribuído para o seu alcance, motivo de orgulho para a geração atual e futuras.
* Eng. Agrônomo e Economista, Pesquisador da Embrapa e Diretor Nacional de C&T do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário. Mestre e Doutorando em Desenvolvimento Sustentável na UnB.
http://www2.uol.com.br/pagina20/24052008/opiniao.htm
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