ONU teme politização do debate sobre etanol 03.06.2008

Lisandra Paraguassú

O tom das declarações sobre as causas da inflação mundial de alimentos começou a preocupar o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. Em conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no fim da tarde de ontem, na embaixada brasileira em Roma, Ki-Moon revelou temor de que a “excessiva politização” das posições apresentadas na cúpula tome lugar das soluções práticas para a crise. Ouviu de Lula que a posição brasileira será “científica”, sem paixões e emoções.

Em conversas anteriores, o secretário-geral da ONU já demonstrou simpatia pela posição brasileira e revelou não ser uma visão generalizada do órgão apontar a culpa da inflação de alimentos diretamente para os biocombustíveis, apesar de mais de um relatório ligado às Nações Unidas ter batido na tecla. No entanto, Ki-Moon pretende ver sair desse encontro do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês) soluções práticas além do tiroteio entre as acusações ao etanol e aos subsídios agrícolas dos países ricos, a posição brasileira.

O governo brasileiro devolve a acusação de politização do debate para os acusadores. “Para nós, excessiva politização são as pessoas que esquecem os subsídios agrícolas e o impacto do preço do petróleo e buscam nos biocombustíveis um fantasma para ser condenado”, disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao fim do encontro entre o presidente e Ban Ki-Moon. “Eu acho que o recado era para outros, os que ficam dizendo que os biocombustíveis causam o aumento de preços.”

De acordo com Amorim, o comentário do diretor da ONU sobre politização valeu a resposta mais longa de Lula, que passou a explicar a intenção do governo brasileiro de sediar uma conferência em São Paulo, em novembro, para fazer a discussão “científica” do etanol. “O Brasil nessa questão é parte da solução, não do problema. Não tem que receber recados e lições de ninguém”, disse o ministro. “Também o governo do presidente Lula ajudou muito ao assumir a liderança, sem nenhum temor, no combate aos subsídios agrícolas, principal arma de destruição em massa que mais causa fome no mundo.”

Em entrevista no dia anterior a jornalistas brasileiros que o acompanham a Roma, o presidente já havia avisado que a defesa do etanol, o fim dos subsídios agrícolas e o preço do petróleo serão seus temas únicos daqui para frente nas relações internacionais - inclusive na reunião do G-8 em julho no Japão, para a qual decidiu ir.

Lula chegou a se definir como “o chato do etanol” e o tom de seu discurso hoje, na abertura da Cúpula da FAO, pretende ser “duro”, especialmente no ataque aos preços do petróleo. O presidente chega a falar em “especulação no mercado futuro” do combustível e vai lembrar que, mesmo no Brasil, onde o petróleo representa apenas 46% da matriz energética, a atual cotação do barril, de US$ 145, chega a 30% do custo de produção de alimentos.

No encontro com Ban Ki-Moon, Lula informou extra-oficialmente ao diretor da ONU sobre a decisão do encontro dos países do Sistema para Integração Centro-Americana (Sica), na última semana, em El Salvador, de pedir às Nações Unidas uma reunião para debater o petróleo. De acordo com Celso Amorim, Ki-Moon mostrou interesse na idéia e pode levá-la adiante ainda este ano.

A reunião poderia ser uma tentativa de mudar o foco do ataque dos biocombustíveis para o petróleo, na guerra de acusações que se tornou a tentativa de encontrar a culpa pela inflação dos alimentos. Apesar de hoje praticamente só Brasil e Estados Unidos produzirem etanol - no caso americano, de milho - em escala industrial, boa parte da culpa passou a recair sobre os biocombustíveis desde que os alimentos começaram a subir.

A briga brasileira começou com a acusação de Jean Ziegler, então relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, que chegou a classificar a produção de biocombustível como “crime contra a humanidade”. Depois, as acusações foram secundadas por integrantes do FMI e repetidas por especialistas e parte da imprensa européia e americana.

A própria FAO aponta, em um de seus documentos, como responsabilidade dos biocombustíveis cerca de 20% da inflação de alimentos, relacionada especialmente com especulações de mercado. Um documento que está sendo preparado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e deve ficar pronto em julho quer colocar o etanol como responsável por 20% a 30% do aumento de preços.

A posição do governo brasileiro é de que as teorias serão difíceis de provar. A briga, no entanto, promete ser longa e solitária.

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