
Denise Zandonadi
dzandonadi@redegazeta.com.br
A terceira crise do petróleo já começou e pode ser bem mais grave do que as de 1973 e 1979 na avaliação dos especialistas. Com o barril de petróleo próximo dos US$ 150 e sem perspectivas de cair abaixo dos US$ 100, os países desenvolvidos, leia-se os europeus, Estados Unidos e Canadá, já começam a se movimentar para encontrar soluções a curto e médio prazo.
Foi preciso um período de cinco anos para que o barril subisse de US$ 40 para US$ 90 dólares. Porém, apenas seis meses foram necessários para que o chamado "ouro negro" passasse de US$ 100 dólares, o que aconteceu no início de 2008, para chegar a 139 na semana passada.
As implicações do aumento no preço do principal combustível do planeta, que é finito e originado de material fóssil, são grandes e podem agilizar tanto os investimentos em novos campos de petróleo quanto em outros tipos de combustível e outras formas de gerar energia.
Inflação
Considerando que o preço do petróleo influencia desde o arroz e feijão de todo dia até o querosene de aviação, passando por roupas e pneus, aumentos drásticos como os que vem ocorrendo mexem com a economia. O resultado é mais inflação, que levam os bancos centrais a aumentarem as taxas de juros, que levam à recessão e assim por diante.
Países que conseguiram enfrentar as outras crises do petróleo sem grandes turbulências, agora passam por momentos difíceis. Milhares de motoristas de caminhão e ônibus em várias partes do mundo estão em greve devido ao aumento do preço dos combustíveis. Mais de cinco mil motoristas pararam de trabalhar na Coréia do Sul.
Na Argentina, o setor supermercadista começa a sofrer com o desabastecimento provocado pela greve. Protestos e paralisações também estão acontecendo na Espanha, Malásia, Inglaterra, França e Filipinas. Na Espanha, cerca de 75 mil motoristas de ônibus estão sem trabalhar desde domingo passado. O governo espanhol prometeu tolerância zero com qualquer protesto violento.
Milhares de motoristas de caminhão em várias partes do mundo estão em greve devido ao aumento do preço dos combustíveis. Mais de 5 mil motoristas pararam de trabalhar na Coréia do Sul. Na Argentina, o setor supermercadista começa a sofrer com o desabastecimento provocado pela greve. Protestos e paralisações também estão acontecendo na Malásia, Inglaterra, França e Filipinas.
Estado prova do lado bom da alta
A alta do petróleo tem ao menos um lado positivo e que já está beneficiando o Espírito Santo. Como o jornal A GAZETA mostrou com exclusividade no último sábado, as prefeituras estão dobrando e até triplicando os valores recebidos dos royalties de petróleo. Além disso, vários projetos podem ser acelerados para que mais óleo seja descoberto. "Para o Espírito Santo o aumento é interessante por um lado, mas prejudicial por outro. Quanto mais o preço sobe, mais os projetos para exploração de novas reservas será acelerado, trazendo crescimento econômico para o Estado. Mas, por outro lado, a alta do barril nos prejudica tanto quanto em outros Estados e países", analisa o professor de Economia Orlando Caliman.
Segundo ele, mesmo considerando as recentes descobertas na camada do pré-sal, o petróleo é um recurso finito. "Um preço tão alto como o de agora, quase US$ 140 o barril, (medida internacional que equivale a 159 litros), forçará os países a repensarem a matriz energética e o Estado também".
E isto não só em relação ao petróleo como combustível. Caliman chama a atenção para a enorme cadeia produtiva envolvida com refino de petróleo e a produção de centenas de produtos que utilizam algum derivado do óleo e do gás. "Nem paramos para pensar em quantos produtos utilizam derivados: desde roupa, sapatos, plásticos, fertilizantes, até o próprio combustível que pode ser energia ou alimentar o transporte", destaca.
O próprio setor agrícola vem sofrendo com os reajustes do barril. Não é só o combustível que move tratores, máquinas e caminhões para para o transporte dos alimentos. O adubo necessário para melhorar a produção também é derivado do petróleo e, se este encarece, o preço final dos alimentos também sobe.
Outra questão que Caliman chama a atenção é para o fato de que os administradores públicos precisam pensar, e rápido, em como resolverão a questão da mobilidade urbana nas cidades grandes. "Não há como continuar vendendo carros da forma como está sendo feito". Os investimentos em outras formas de energia ainda são pequenos e, mesmo que não fossem, os países ainda não têm como abrir mão do petróleo por, pelo menos, os próximos 30 anos, garantem os especialistas.
Isso significa que, para o Espírito Santo e o Brasil, muitos investimentos ainda serão feitos nesta área, principalmente em função das descobertas recentes de petróleo na camada do pré-sal.
Entenda a crise do petróleo
Consumo. O mundo vive um crescimento acelerado no consumo de petróleo. Depois de um crescimento médio de 1,54% ao ano, durante o período 1992-2002, a demanda mundial aumentou 1,93% em 2003 e 3,7% em 2004. Atingiu um recorde de 82,1 milhões de barris por dia em 2005. O crescimento foi maior foi na China, com um salto de 7,6% em 2003 e 15,8% em 2004.
Limite. O aumento da demanda levou os países produtores a extrair até o limite de sua capacidade. Eles não têm como obter mais petróleo. Além disso, há uma saturação na capacidade de transporte e refino, principalmente nos Estados Unidos.
Futuro. As estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE) e do Departamento norte-americano de Energia prevêem um aumento de cerca de 50% no nível mundial de consumo, durante os próximos 25 anos. Isso provocaria um salto de 83,2 milhões de barris/dia, em 2005, para 115,4 milhões, em 2030, segundo a AIE (ou 131 milhões, de acordo com o órgão dos Estados Unidos.
Opep. Os países produtores e consumidores de petróleo marcaram para o dia 22, na cidade de Jeddah, na Arábia Saudita, um encontro para discutir os preços elevados do petróleo.
Estoque. As reservas mundiais de petróleo conhecidas são superiores a 1 trilhão de barris, sendo que a Arábia Saudita possui a maior reserva, com mais de 260 bilhões de barris. O Brasil tem hoje cerca de 14 bilhões de barris em reservas conhecidas e comprovadas. O Oriente Médio detém cerca de 75% das reservas mundiais.
No lixo. O desperdício ajuda a acabar com as reservas do petróleo. O Brasil desperdiça cerca de R$ 10 bilhões, por ano, devido ao mau uso de energia incluindo o derivados do petróleo, eletricidade e gás natural.
Previsão de mais altas
Adriano Pires
Especialista em infra-estrutura do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura
A oferta de petróleo no mundo continua menor do que a demanda, o que justifica os preços altos, muito acima do que era esperado para este ano. A expectativa é que chegasse a US$ 100 o barril, mas já está em torno de US$ 140. Mesmo que os países produtores membros da Opep decidissem aumentar a produção em 2,5 milhões de barris por dia, que é a capacidade que eles têm para curto prazo, não provocaria redução significativa dos preços porque este volume é muito pequeno para fazer frente ao que o mundo precisa. O resultado disso é que está havendo uma mudança de hábito por parte dos consumidores, principalmente nos países mais ricos. A tendência é que o preço chegue aos US$ 150 o barril nos próximos meses.
"O preço cada vez maior do petróleo é bom e é também muito ruim para o Espírito Santo"
Orlando Caliman - Economista
"A chance de petróleo barato cada dia é mais restritiva, mais remota"
Paulo Roberto da Costa diretor de Abastecimento da Petrobras
"O preço vai continuar caro nos próximos cinco anos devido à forte demanda de China e Índia"
José Sérgio Gabrielli - Presidente da Petrobras
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