
BRASÍLIA – A vida do escritor Benedicto Monteiro, que morreu aos 84 anos, vai virar filme. Nascido em Alenquer (PA), autor de diversos livros e reconhecido como um dos maiores romancistas da Amazônia. Monteiro foi um homem corajoso e de uma dignidade a toda prova: cassado, preso e torturado pelo regime militar, em 1964, quando exercia o mandato de deputado estadual no Pará, teve os direitos políticos suspensos por mais de dez anos.
Em 1988, Benedicto Monteiro participou da Assembléia Nacional Constituinte. Também conhecido por Bené, o escritor se foi no dia 15 de junho, em Belém (PA). Deixou o nome gravado no muro da liberdade. Benedicto Monteiro amava a Amazônia do jeito que a amam aqueles que nela nasceram e conhecem as suas imensuráveis riquezas, apesar do sofrimento causado pelo abandono a que a região é quase sempre relegada.
A obra do escritor Benedicto Monteiro é reconhecida e prestigiada não só no Brasil, mas, sobretudo no Exterior. Na Europa, seus livros são traduzidos e servem como objeto de teses de mestrado, doutorado, de monografias e estudos acadêmicos. Conseguiu um feito raro entre escritores brasileiros, ao se tornar conhecido em Portugal, Holanda, Itália e Alemanha ( Berlim e Colônia).
Na Alemanha, o professor Klaus Meyer Koeken defendeu tese sobre a obra de Monteiro. A tese foi intitulada "Die Illusion Von oraitãt im brasilianischen Roman": "Zur Simulation realer Sprechsituationen in drei ‘mündich erzählten Lebensgeschichten", com resumo em português: "A ilusão da oralidade no romance brasileiro" destaca e considera o romancista Monteiro como um dos representantes da literatura brasileira neste estilo de narrativa, colocando-o ao lado dos renomados escritores França Junior e Guimarães Rosa.
A Comissão da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados lembrou-o, na semana passada, recorrendo ao antropólogo e escritor Darci Ribeiro, que um dia foi encarregado de apresentar um de seus livros: "Quem sou eu, para apresentar a você leitor, um romance de Benedicto Monteiro? Tenho Bené velho amigo e companheiro provado, por mestre meu e nosso. Guru reconhecido como o romanceiro da Amazônia".
"Sua teatrologia – "Verde Vagomundo" e "Minossauro", completada com a "Terceira Margem" e "Aquele Um", é o espelho que se se compôs até hoje para ver a Amazônia. Nele se reflete nitidamente a infinidade das águas da mãe das águas do mundo. É também nele que os mil verdes rebrilham, verdejando as verdes matas deste verde-vagomundo.
"É ainda, em Bené, que a claridade do céu mais lavado de chuvas, ventos e tempestades nasce de dentro d'água, toda hora, por todo lado, na linha do horizonte, para compor de vidro a cúpula do mundo. Mais olhos do que teve Bené para ver e sofrer e comunicar a dor e o gozo milagroso de ser amazônida. A vil tristeza desta nossa gente despossuída de si mesma para ser engajada e gastada na produção venal do que não come do que não usa".
Foi Darci Ribeiro que apresentou Benedicto Ribeiro aos internautas. O antrópologo é o autor de um prefácio do site Verdevagomundo , Bené divulga seu mais recente livro e as demais obras. Darci escreve:
"Debaixo deste céu destampado, sobre estas infinitas águas moventes, no fundo destes vagos verdes matos, navegamos com Bené em sua canoa gita, por furos e varadouros, de ilha a ilha, de lago a lago, de várzea a várzea, de margem a margem, até a terceira margem.
Com ele, subindo de a pé pela calha arriba, entramos na mataria alta, sombria, para ver lá debaixo, homens andantes, silentes; e lá em cima, macacões guaribas saltando urrantes. Os homens tristes , severos. Os macacos alegres, gaiatos.
Mais olhos ninguém teve do que Bené para ver e sofrer e comunicar a dor e o gozo milagroso de ser amazônida. A vil tristeza desta nossa gente despossuída de si mesma para ser engajada e gastada na produção venal do que não come do que não usa. Como, felizmente, Bené é romancista, não há nuncao risco de afundarmos para sempre na dor sem remédio do drama total. Vez por outra, ele salta, brincalhão e pândego, para os banhos de igarapé ou de águas fundas; as fodas meninas em emblemas de mulher desenhados no barro mole das barrancas; ou enlanguece de gozo amoroso no erotismo quente que resgata o amazônida cativo".
Vinte livros publicados
Bené era escritor, advogado, jornalista e político, e reconhecido nacional e internacionalmente pela sua luta em favor da democracia e ligação com os movimentos que combateram o regime militar. Foi preso e torturado pela ditadura, mas nunca chegou a ser exilado. Foi um dos mais importantes escritores paraenses do século 20, membro da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Jornalismo.
Sua obra inclui mais de 20 livros publicados, alguns deles com tradução para holandês, francês e alemão. Entre eles, ‘Bandeira branca’, ‘O Carro dos Milagres’, ‘Maria de Todos os Rios’, ‘A terceira dimensão da mulher’, ‘Cancioneiro de Dalcídio’, ‘Prosa e poesia’, ‘O transtempo’, a teatralogia ‘Verdevagomundo’, ‘O Minossauro’ , ‘Aquele Um’ e ‘O Home Rio’.
Obras do escritor mexem com a ilusão da oralidade
BELÉM – Há três anos, o produtor de vídeo Gilvan Capistrano abria sua produtora e estudava a possibilidade de fazer um documentário sobre um paraense ilustre. "Eu já tinha lido dois livros dele e resolvi ir à casa dele, meio ressabiado, explicar minha idéia. Já fizemos gravação nesse dia mesmo", lembra, referindo-se a Bené e sobre o filme "Transtempo – Vida e Obra de Benedicto Monteiro". A obra será lançada na Feira Pan-Amazônica do Livro deste ano. "Ele topou na hora, me recebeu super bem, disse que ajudaria no que ele pudesse", disse.
Capistrano gravou duas entrevistas longas em que Bené conta a própria história. Em seguida, ele teve seu primeiro problema grave de saúde, passou meses em coma e o projeto acabou parando por dois anos. No fim do ano passado, contemplado para captação de recursos com a ajuda da Lei Semear de incentivo do Estado, o projeto voltou a caminhar.
"Montei uma nova equipe e continuamos, mas não conseguimos captar recursos, continuamos bancando os custos nós mesmos. Mas só temos 50% do documentário pronto e queremos finalizá-lo em agosto, a tempo de lançar durante a Feira do Livro. Não acho que esse trabalho ganha mais força agora com a morte do Benedicto, a história dele tem uma força muito grande, já era importante antes de tudo isso, ele tem uma biografia de muito valor para esse Estado", afirmou Capistrano.
Perseguição
O produtor destaca a Literatura e a Política como as duas importantes vertentes da história de Benedicto. "Por ser político de esquerda e com mandato de deputado estadual, ele foi crucificado pela ditadura, fizeram dele o bode expiatório, cassaram os direitos políticos dele. Depois o caçaram em Alenquer, foi muito torturado.
Foram dez anos de perseguição e sem direitos, ele não arranjava emprego e o mesmo acontecia com seus familiares. Isso só acabou quando a ditadura caiu, e aí veio o lado escritor, que as pessoas conhecem mais. 40 anos após a ditadura, muita gente quer mexer nisso e nós queremos resgatar esse passado do Benedicto com o documentário, para que se tenha noção de como era o Pará na época, quando ele, o Ruy Barata e o Raimundo Jinkings eram perseguidos", detalhou Capistrano. "O estilo dele é comparado ao de Guimarães Rosa, por mexer com a ilusão da oralidade, há muitos estudos na Alemanha, nos Estados Unidos, teses de Doutorado baseadas na obra dele.
"Não foi uma perda" O primeiro romance contextual da Amazônia é dele, foram muitas as premiações, ele elegeu uma nova forma de escrever e isso foi reconhecido pela imprensa especializada na época, afirma o produtor. O nome do documentário é o mesmo da auto-biografia de Benedicto Monteiro e significa "hoje, amanhã e presente, ao mesmo tempo".
"Não vejo a morte dele como perda. Estive com ele há dez dias, antes dele piorar e o vi sóbrio, dizendo que estava morrendo, querendo sua liberdade. Ele cumpriu seu ciclo, contextualizou a Amazônia como ninguém fez. Se hoje entendemos o jeito caboclo do interior em textos, é por causa dele, que conseguiu dar fala a eles. Se hoje vivemos a liberdade de produzirmos o que queremos é por causa de gente como ele, que era militante da liberdade", finalizou Capistrano. (De O Liberal)
http://www.agenciaamazonia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=2615&Itemid=259
© 2007 RJHost.com.br
MELHOR VISUALIZADO EM PELO MENOS 1024 x 768 PIXELS