Vítimas de atentado refazem tendas na Amazônia 05.05.2008

MONTEZUMA CRUZ
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BRASÍLIA – Sem comida e sem água potável, cerca de cem famílias despejadas a tiros por um bando de jagunços de uma área ocupada na Fazenda Catâneo estão às margens da BR-421 (antiga Rodovia da Cassiterita), a cerca de 400 quilômetros de Porto Velho. A polícia diz que não encontrou cadáveres na região, conforme suspeitou quarta-feira, dia do atentado, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Desde o ataque, 30 pessoas desapareceram aterrorizadas. Do bando, que seria formado por mais de 50 homens, alguns usavam coletes à prova de bala. Entre os desaparecidos estão um homem de 70 anos e uma mulher grávida. Algumas motos usadas pelos camponeses foram abandonadas.

A Ouvidora Agrária enviou um representante à região, no entanto, ele foi embora sem contatos com as vítimas. “Eles estão desolados”, comentam jornalistas do Causa Operária Notícias Online que foram a Campo Novo: “Os barracos do acampamento viraram cinza e a área permanece cercada por pistoleiros”, informam.

O acampamento Conquista da União (nome dado pela LCP) acabou. Os camponeses perderam ferramentas e utensílios domésticos. Voltando aos poucos para o local, desde quinta-feira, eles usam folhas de bananeira para refazer o teto de novos barracos. Permanecem só as roupas do corpo, as mesmas que usavam quando ocorreu o ataque.

“Alguns sem-terra fugiram descalços, caminhando vários quilômetros para fugir dos tiros. Muitos se feriram em quedas e estão também sem medicamentos”, relatam os jornalistas. Perderam tudo – documentos, roupas e dinheiro, este, “roubado ou incendiado”, segundo denunciaram.


Deputado acusado

Algumas pessoas só voltaram das cidades próximas apoiadas pela LCP, que levou providenciou mantimentos e roupas. A LCP aponta o deputado Ernandes Amorim (PTB-RO) como cúmplice dos proprietários da Fazenda Catâneo. Amorim é proprietário de uma fazenda na região. Na Câmara, esta semana, ele acusou a LCP de práticas violentas e acusou o governo por não solucionar os problemas fundiários em Rondônia. “Os homens de Amorim levaram sacolas de balas e recarregavam suas armas ali mesmo”, acusam. Amorim vai se pronunciar a respeito na tribuna da Câmara, na próxima semana.

Já o deputado Moreira Mendes (PPS-RO), um crítico do Incra e dos movimentos de sem-terra no estado, insistiu esta semana na formação de uma comissão externa para estudar o problema. Mendes e Amorim têm bases eleitorais em Ariquemes, próxima à zona de conflito.

Precavida, embora frustrada com a Ouvidoria Agrária e o Governo de Rondônia, dos quais esperava mais atenção, a LCP se antecipou: seus advogados telefonaram para a Polícia Federal e o Ministério da Justiça.

Em editorial, nesta sexta-feira, a Folha de Rondônia – jornal de Ji-Paraná ligado ao governador Ivo Cassol – criticou os camponeses por anunciar um massacre, antes de investigado o ataque de quarta-feira.

Nova nota da LCP diz: “Como nos regimes de exceção, típicos de ditaduras militares, impõe-se a verdadeira terra sem-lei, onde quem governa são os latifundiários e seu grupo de capangas assassinos. Esta situação reina impunemente em Rondônia, e vem acontecendo em uma escalada repressiva sem precedentes, isto com a total cobertura dos governos estadual e federal e também da imprensa burguesa em nível nacional. Isto só confirma o plano orquestrado pelo governo Lula e o governo do latifundiário Ivo Cassol para perseguir e massacrar os sem-terra de Rondônia”.

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